Na cidade de Jardim, banheiros mal feitos é o que não falta


Sem pia, sem chuveiro e sem caixa d’água, para quem está acostumado com o conforto das grandes cidades, fica difícil chamar a modesta construção de banheiro. A agricultora Ana Leica Rodrigues, 26, até teve montada a nova estrutura, no terreno de casa, mas o banho continua sendo “de cuia” e a descarga ativada pelo balde de água, entre as quatro paredes sem uma janela sequer. Isso faz parte da realidade na zona rural do extremo sul do Ceará, quase na divisa com Pernambuco. O município de Jardim abriga famílias que viram sua necessidade de ter um kit sanitário montado em casa se realizar pela metade - ou nem isso.

Muitos dos banheiros entregues nunca foram concluídos, alguns estão fora do modelo padrão e tem imóvel com mais de um deles. “Eu nem achei graça receber, porque não tá terminado. A pia, ó, tá atrepada na parede”, mostra Ana, quando, logo depois, a pia cai no chão. E o material não veio? “Disseram que veio, mas o Chico de Nera desviou. Agora, que vai ter eleição, eles devem aparecer”, apontou a moradora.

“Chico de Nera” é Francisco Rodrigues – filho de Nera. Ele é presidente de dois grupos da localidade: a Associação Comunitária Santa Ana e a Associação Cultural Violeta Arraes. Esta última responsável por dois convênios que construiriam um total de 133 kits em distritos afastados do município.

Foi a ele, que é seu primo, que o comerciante Pio Rodrigues, 49, pediu que se construísse em frente ao seu comércio um novo banheiro, mesmo que já tivesse um na sua casa, situada no mesmo local. “Porque aqui sempre aparece gente que precisa usar”, explicou. Banheiro que foi construído fora do modelo padrão estabelecido pela Secretaria das Cidades, com apenas um vaso sanitário dentro da casinha. “As caixas d’água não vieram. A maioria (dos moradores) comprou do seu próprio dinheiro”, diz.

Acabamento

A poucos metros dali, dona Lúcia de Sousa, 54, e seu Joaquim Inácio, 62, um casal de agricultores, já usufrui do kit desde o ano passado, mas fazem as contas de quando vão poder e quanto irão gastar para, como eles dizem, “terminar a obra”, com azulejos e outras melhorias. Além do gasto a mais, foi o próprio homem, já em idade avançada, quem abriu a fossa. Segundo eles, exigência do próprio convênio. Ainda assim, eles festejam a nova estrutura. “Só tinha um banheiro velho, sem nada. Agora, a gente não precisa mais tomar banho no açude”, compara.

Por quê

ENTENDA A NOTÍCIA


Desde o dia 14 de julho, O POVO vem contando histórias de pessoas que não possuem banheiros em casa e que tiveram suas expectativas frustradas por conta do não cumprimento de contratos entre associações e o Governo.

SAIBA MAIS

Detalhes dos convênios:


1. Contrato único de R$ 50 mil para a construção de 33 kits, entre 23 de junho de 2010 e 23 de junho de 2011. Os recursos foram liberados em duas parcelas: R$ 25 mil em 1º de julho de 2010 e R$ 25 mil em 9 de junho de 2011. Situação: adimplência.

2. Contrato único no valor de R$ 150 mil para a construção de 100 kits, entre 15 de novembro de 2008 e 15 de janeiro de 2010. Somente duas parcelas dos recursos foram liberadas. A primeira, em março de 2009. A segunda em dezembro de 2009. Ambas de R$ 50 mil. A terceira, que deveria ter sido liberada ainda em novembro de 2009, não foi repassada. Situação: adimplência.

Fonte: Portal da Transparência do Governo do Estado.
(JORNAL O POVO)

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